Rosangela Demetrio


Baruzzi pelo olhar do índio
06/03/2018, 18:24
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Por Rosangela Demetrio

“O Baruzzi é nosso pai. Ele e o Orlando. Nós estamos aqui hoje por causa deles. Antigamente, a gente ia acabar. Muita doença, sarampo. Muita gente morreu. Depois quando o Orlando trouxe o Baruzzi, ele trouxe as equipes e as vacinas. Hoje, você pode ver quantas crianças estão correndo por aí na aldeia. A gente cresceu na mão de vocês, da Escola Paulista, na mão do Baruzzi.”

A fala acima é do Takuman, um importante pajé Kamaiurá do Alto Xingu, e reflete o pensamento de todas as etnias presentes no Kwaryp em homenagem ao Professor Baruzzi, realizado na aldeia Kamaiurá, no Parque Indígena do Xingu, nos dias 5 e 6 de agosto passado. Demonstra também a importância conquistada por um homem branco, médico e professor que, por 50 anos, representou a esperança para aqueles povos.
“Somente dois caraíbas (como somos chamados pelos Kamaiurá) foram homenageados com a realização de um Kwaryp: os dois grandes amigos Orlando Villas Boas e Baruzzi”, relata Douglas Rodrigues, chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente/Projeto Xingu.
“Ver a homenagem dos índios ao meu pai, foi algo muito especial para nossa família. Nossos filhos, meus e de meus irmãos, ficaram surpresos de ver o carinho, a importância e a deferência com que os índios se referiam a meu pai e à marca que ele deixou entre eles. Os depoimentos e as histórias contadas por eles nos emocionaram e ver escrito nas costas do índio Mutuá “OBRIGADO BARUZZI,” durante o ritual de dança, foi muito tocante para nós.
A cerimônia cheia de simbolismo, cantos e choros deu significado às nossas saudades e tristeza, e também conforto, pois no dia seguinte, de acordo com o ritual, a alma sai do tronco e segue seu caminho e não se chora mais. Agora está em paz!
Pudemos sentir que o Xingu e o convívio com os índios é de fato, apaixonante. Muitos depoimentos dos “brancos”, Prof. Acary, Douglas, Prof. Belfort, Prof. Paulo Pontes entre outros, mostraram a marca do Projeto Xingu em suas vidas, foi lindo ouví-los e sentir um pouco da presença do meu pai em suas histórias.
Dá para entender hoje porque meu pai se dedicou de corpo e alma a este trabalho e o tornou a sua missão de vida. E até sua morte foi conduzida pelos espíritos índios, pajelança realizada no hospital e a morte na mesma noite.
Nós, filhos, só temos a agradecer por todo exemplo de dedicação e amor. OBRIGADA PAI”, descreve a filha, Márcia Baruzzi.

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