Rosangela Demetrio


Pra quê provocar?

Mesmo depois de o pastor norte-americano Terry Jones ter voltado atrás em seu plano de queimar exemplares do Alcorão como manifestação por mais um “11 de Setembro”, os protestos em repúdio à sua ideia continuam em parte do mundo islâmico. Só no domingo, dois manifestantes afegãos morreram e quatro ficaram feridos

 O plano do norte-americano para queimar o Alcorão provocou indignação entre os milhões de muçulmanos e de muitos outros. Não entendo pra quê ficar provocando o Islã. Não precisa ser muito esperto para perceber que a questão religiosa no Oriente Médio é ponto pacífico. Ainda mais se a ofensa vier de um religioso. Creio que o respeito é o melhor caminho para a conquista da paz. Enquanto isso não acontecer, nada vai mudar no mundo. Nem todos têm acesso fácil aos meios de comunicação no Afeganistão e podem não ter tido o conhecimento da decisão de Jones de cancelar seu manifesto.

O que diriam, por exemplo, os protestantes se alguém ameaçasse queimar Bíblias por aí? E os espíritas, se queimassem Evangelhos? Só que tudo que se relaciona ao Islã pode tomar proporções inimagináveis. Quem não se lembra do perigo que correu o escritor indiano Salman Rushdie, que resolveu cutucar onça com vara curta, quando publicou o livro Versos Satânicos, em 1989? A controvérsia foi devido ao livro ter sido considerado ofensivo ao profeta Maomé. Lembro-me bem quando o líder do Irã, Aiatolá Khomeini, ordenou a execução de Rushdie pelo crime de apostasia – fomentar o abandono da fé islâmica –, que é punível com a morte. O autor comunicava por meio do romance que já não acreditava no Islã. Isso mudou a vida daquele indiano, que passou a viver asilado na Inglaterra.

Atualmente, no Afeganistão, qualquer incidente pode tornar-se um motivo para romper a situação de segurança no país. No domingo, os manifestantes gritavam “Morte à América”, queimavam pneus, atacavam várias lojas e aproveitavam para queimar também cartazes da campanha política referente às eleições de 18 de setembro. Há promessas de ataques às urnas e o clima acabou ficando mais tenso do que normalmente é. Aquele povo já tem problemas demais e passa por momentos de apreensão. Pra quê ficar dando mais motivo?

A esperança do governo local e de seus aliados ocidentais é que as eleições para a câmara ajudem a consolidar a frágil democracia do país, levando à retirada das tropas estrangeiras de lá. Porém, o que muitos temem são os ataques anunciados pelo Taleban, que podem transformar o pleito numa batalha.

Este artigo foi publicado no Jornal Empresas&Negócios em 15 de setembro de 2010. Qualquer reprodução deverá citar fonte e autoria.

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