Rosangela Demetrio


O que são “pedras sujas”?

Esse termo vem sendo utilizado, desde a década de 1990, em referência aos diamantes brutos extraídos ilegalmente de Serra Leoa, na África, utilizados como moeda de troca por armas para financiar os conflitos armados entre esse país e seu vizinho, a Libéria. Os involuntários garimpeiros eram tratados de forma desumana, forçados a trabalhar após terem suas tribos e acampamentos aniquilados e seus filhos recrutados para formação de exércitos infantis. A ilegalidade no processo de extração, distribuição e comércio, produz “pedras sujas”, também conhecidas como “diamantes de sangue”

Engana-se quem pensa que isso é coisa do passado. Prova disso é que está previsto para hoje, no Zimbabué, o início de um leilão de “diamantes de sangue”, autorizado pelo regulador do setor, devido aos progressos no respeito dos direitos humanos nas minas de Marange. As exportações de diamantes de lá tinham sido bloqueadas em novembro pelo Processo de Kimberley.

O tema voltou às manchetes na última quinta-feira, dia 5, devido ao depoimento da modelo internacional Naomi Campbell ao Tribunal Especial de Haia para Serra Leoa, na Holanda. Naomi disse ter sido presenteada pelo ex-presidente liberiano Charles Taylor com diamantes, que poderiam ser “pedras sujas”, logo após um evento promovido pelo então presidente da África do Sul, Nelson Mandela, em 1997, e que entregou as pedras para caridade. Jeremy Ratcliffe, homem que recebeu as pedras, é ex-administrador da organização beneficente do Fundo Mandela para as Crianças, e afirmou em um comunicado que pegou os diamantes de Naomi um dia depois que a modelo os recebeu, pois temia que ela pudesse infringir a lei, saindo com eles da África do Sul. Ele as reteve consigo, dizendo que não poderia arriscar a idoneidade do Fundo, aceitando doações que pudessem ser ilegais. Logo após o depoimento da modelo britânica, os diamantes, até então guardados por Ratcliffe, foram por ele entregues às autoridades policiais.

Tais diamantes são provas importantes no Tribunal de Haia, onde Charles Taylor está sendo julgado por crimes de guerra. Ele é alvo de sérias acusações, entre elas de instigar assassinatos, estupros, mutilações, escravidão sexual e recrutamento forçado de crianças para a guerra durante conflitos na Libéria e Serra Leoa, nos quais mais de 250 mil pessoas foram mortas. A promotoria espera que o depoimento de Naomi possa revelar evidências da ligação de Taylor na troca de diamantes brutos por armas fornecidas aos rebeldes durante a guerra, que durou de 1992 a 2002.

Todo o processo de violação dos direitos humanos na utilização de mão-de-obra escrava para extração de diamantes em Serra Leoa, durante a guerra, foi brilhantemente retratado no filme Blood Diamond (Diamantes de Sangue). O filme mostra crimes em série que foram cometidos na região, onde os próprios contrabandistas acabavam matando-se uns aos outros, por ganância. E revela também a preocupação dos grandes importadores e exportadores de joias da Europa com a entrada de tantas pedras ilegais no mercado e a consequente queda dos preços. Devido a essa preocupação, os países interessados reuniram-se para elaborar um sistema de certificação para o comércio internacional de diamantes em bruto, o chamado Processo Kimberley, que será tema de meu próximo artigo (18/8). Não perca!

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