Rosangela Demetrio


Nem tudo é Jabulani na África

A realização do Mundial de Futebol na África do Sul talvez tenha sido um dos melhores acontecimentos dos últimos tempos naquele continente. A motivação da população em torno dos jogos tem revelado ao mundo uma alegria característica do povo africano. Porém, enquanto os olhos do mundo estão voltados para a África do Sul, em outros países da África ainda se vê violência física e moral assolando comunidades.

Refiro-me ao que acontece em Darfur, no Sudão. O conflito naquela região, que explodiu em 2003, já provocou aproximadamente 400 mil mortes e 2,7 milhões refugiados, conforme informações da ONU. Há acusações de violações dos direitos humanos, inclusive assassinatos em massa, saques e o estupro sistemático da população não-árabe.

Em 2003, dois grupos armados da região revoltaram-se contra o governo central sudanês. O Movimento de Justiça e Igualdade e o Exército de Liberação Sudanesa acusaram o governo de oprimir os não-árabes em favor dos árabes do país e de negligenciar a região. Para reprimir os revoltosos, o governo iniciou campanha utilizando bombardeio aéreo e os eficazes ataques por terra da temida milícia árabe, conhecida como “Janjauid”, que incendiou aldeias inteiras, forçando os sobreviventes a fugir.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas votou por unanimidade a constituição de uma força militar conjunta da ONU e da União Africana (UA) para Darfur, em julho de 2007. A resolução autorizou a formação de uma força denominada Unamid, constituída por 26 mil soldados e policiais, com o objetivo de preservar os direitos humanos na região, assegurar a liberdade de circulação dos agentes humanitários e prevenir ataques e ameaças contra civis. Entretanto, alguns focos de violência continuaram. Segundo fontes locais, só em 2009, cerca de 2.500 pessoas foram assassinadas no Sudão e aproximadamente 350.000 refugiaram-se.

Um momento muito especial se aproxima. Em janeiro de 2011, deverá ser realizado um referendo, que determinará o futuro do Sudão. A população do Sul do Sudão votará para decidir se deseja continuar a fazer parte de um Sudão unido ou se prefere formar um país independente. Apesar do Acordo Geral de Paz estar em vigor, tal referendo pode representar mais violência, haja vista que, desde o início dos conflitos, existe uma imposição étnica e religiosa ao povo não-muçulmano do Sul do país, que ainda vive no Norte.

Esse é apenas uma das razões pelas quais a realização da Copa do Mundo na África do Sul representa um dos melhores momentos para o continente. É uma oportunidade de estar na mídia. Uma oportunidade única de atrair olhares para um povo que tem muitas necessidades. O evento é como um alívio, mesmo que por alguns dias, um motivo para sorrir e ainda acreditar que dias melhores virão. O que o mundo espera é que os direitos humanos sejam garantidos às comunidades em Darfur, antes e depois do referendo, e que cada um possa escolher livremente sua forma de acreditar em Deus.

Artigo escrito por Rosângela Demetrio e publicado no Jornal Empresas & Negócios no dia 7 de julho de 2010. Qualquer reprodução deverá citar fonte e autoria.

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