Rosangela Demetrio


Uma luz amarela se acende no Suriname

Talvez, o ataque de 24 de dezembro tenha sido um alerta de que algo muito grave pode estar para acontecer naquela região, onde a comunicação é precária, a telefonia celular chegou recentemente e o acesso à internet não é comum

Na véspera do último Natal, fomos surpreendidos com a notícia de que um acampamento em Albina, região de fronteira do Suriname com a Guiana Francesa, a 150 quilômetros da capital Paramaribo, no qual vivem diversos imigrantes, entre eles brasileiros, fora invadido por centenas de descendentes de quilombolas, chamados de “marrons”, munidos de facões, ferramentas e pedaços de pau, enfurecidos pelo assassinato de um surinamês por um brasileiro. O ataque indiscriminado seria uma retaliação pela morte do surinamês. Cerca de 200 garimpeiros, entre brasileiros e chineses, foram atacados na região, sofrendo ferimentos, cortes e até mordidas. A tensão no local era grande. O pavor tomou conta das pessoas. Uma verdadeira barbárie acontecia ali.

Mas essa história não começou hoje. No fim da década de 1980, depois que Serra Pelada e Carajás deixaram de ser pólos tão atraentes para o garimpo, a imigração de brasileiros para o Suriname intensificou-se. Os garimpeiros buscavam por outras minas de ouro e novas fontes de trabalho, cruzando a fronteira. O que se percebe, hoje, é que desde o início da imigração, os brasileiros já não eram muito bem-vistos pelos “marrons”.  É uma questão cultural, mas, acima de tudo, de poder e sobrevivência.

O Suriname é um país que já passou por diversas situações de opressão: colonialismo, ditadura, conflitos étnicos. Hoje, vive em meio a todos os reflexos de sua história e ainda enfrenta o contrabando, o tráfico de drogas e a imigração ilegal. A ilegalidade sempre prevaleceu nas relações de trabalho dos brasileiros naquela região.

A convivência dos brasileiros com os surinameses quilombolas mostra-se tensa por conta das relações de poder no garimpo. Estima-se que cerca de 20 mil brasileiros vivam por lá, garimpeiros que se estabelecem no leste do país, atrás do ouro. Entretanto, nosso governo não considera expressiva a presença de brasileiros e tem projetos para intensificar relações políticas e econômicas com aquele país. Um dos projetos que devem integrar os dois países é a construção de um novo canal de escoamento da produção brasileira no Atlântico, que irá do Pará até o Suriname.

Artigo escrito por Rosângela Demetrio, publicado no Jornal Empresas&Negócios, em 27/janeiro/2010.

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