Rosangela Demetrio


O poder de uma expressão estrangeira

Palavras de outros idiomas são utilizadas na língua portuguesa de forma tão natural que parecem ter sempre feito parte do nosso contexto

Os profissionais do Comércio Exterior têm uma visão prática com relação ao estrangeirismo: é praticamente impossível viver sem ele. Nós estamos diante de uma realidade cheia de desafios, na qual a comunicação é fator determinante. Se fizermos uma breve retrospectiva, veremos que o Brasil só abriu completamente os olhos para o mundo na década de 1990 e agora temos que correr para recuperar o tempo perdido.

Já no início do século passado, o Manifesto Antropofágico anunciava o que ocorre hoje. Oswald de Andrade, autor do manifesto, clamava pelo autoconhecimento da sociedade, com os propósitos de acabar com a miséria intelectual, denunciar o atraso e o subdesenvolvimento.  Mas, como foi formada a língua portuguesa? Emprestamos, ao longo do tempo, vocábulos do idioma árabe, do alemão, do italiano, do espanhol, do francês, das línguas africanas e das línguas indígenas. As palavras foram adaptando-se às regras de sintaxe e à morfologia da nossa língua. É o caso de performance, por exemplo, ou office-boy.

Expressões introduzidas pela tecnologia tendem a ficar. É o caso de mouse, site, deletar, customizar. As da moda podem desaparecer rapidamente, como aconteceu com banlon, um tipo de tecido macio. Outras ficam mais restritas aos seus segmentos, como o esportivo, responsável por grande parte da “importação” de expressões estrangeiras, e o financeiro, igualmente absorvido pela globalização, que tenta universalizar a linguagem. Existem palavras que aparecem camufladas e poucos percebem que não são genuinamente brasileiras. É o caso de gol (goal), nocaute (knock-out), batom (baton), marrom (marron) e tantas outras.

Seria o estrangeirismo uma tentativa de equiparar artificialmente a nossa forma de vida à estrangeira, em especial com a norte-americana? Talvez, algumas palavras contribuam para transformar ocasiões simples em mais requintadas. Imaginemos a seguinte situação: se ao entrarmos numa lanchonete, pedirmos um refrigerante dietético, o ouvinte da palavra “dietético” pode pensar que somos pessoas com restrição ao consumo de açúcar por ordem médica. Por outro lado, se pedirmos um refrigerante diet, a percepção do receptor provavelmente será de que estamos evitando o açúcar por valorizarmos a boa forma física. Neste caso, estamos na moda. Uma simples palavra anuncia o envolvimento do emissor com o sistema globalizado.

Artigo escrito por Rosângela Demetrio e publicado no jornal Empresas&Negócios, em 11/nov/2009, caderno Economia, página 5.

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